Texto Perfeito!

Curitiba descobriu um novo crime contemporâneo: conversar com moradores de rua sem antes apresentar tese de doutorado em sociologia urbana e pedir autorização ao tribunal dos Likes.
Curioso como alguns tratam qualquer tentativa de abordagem como “higienização social”, mas acham perfeitamente higiênico abandonar pessoas à própria sorte em barracas improvisadas, cercadas por frio, drogas, violência e invisibilidade, sobretudo numa noite como essa. Aparentemente, para certa militância gourmet, dignidade é deixar o cidadão no sofrimento, desde que ninguém questione nada e tudo renda um bom textão performático.
O prefeito Eduardo Pimentel e as equipes conversam, oferecem acolhimento, tratamento, encaminhamento e oportunidades, porém para os fiscais profissionais da indignação, isso virou “espetáculo político”. Talvez o correto fosse ignorar completamente o problema e contemplar a miséria como instalação artística urbana contemporânea das ruas com o título: “A estética do abandono”
Sobre perguntar da barraca e do Bolsa Família… impressiona como uma simples pergunta causou mais indignação do que o fato de existirem pessoas vivendo nas ruas. A prioridade de alguns parece não ser tirar alguém da vulnerabilidade, mas impedir qualquer debate que atrapalhe a romantização da miséria.
E a frase sobre trabalhar? Ora, em qualquer civilização minimamente funcional, incentivar autonomia nunca foi ofensa, estranho seria um prefeito defender dependência eterna como projeto de cidade. Mas hoje em dia até sugerir dignidade através do trabalho já é tratado como discurso medieval por quem transforma paternalismo em virtude moral.
No fim, existe uma diferença básica:
uns querem resolver o problema, outros precisam que o problema continue existindo para manter o discurso vivo.
E convenhamos: chamar abordagem social de “higienização” enquanto se digita isso confortavelmente tomando café especial em copo biodegradável parece menos análise social e mais campeonato olímpico de superioridade moral.
O tema dos vulneráveis da rua sempre foi espinhoso e complexo, agora usar isso para atacar gratuitamente, as ações pensadas em favor deles, atacando prefeito e servidores que dia a dia conhecem essa realidade para obter atenção em época política, isso é muito feio.