História interessante de Henrikh Yagoda e sua esposa Ida

》Na União Soviética da década de 1930, a lealdade podia durar menos que um suspiro.
E poucos exemplos retratam melhor esse período sombrio do que a história de Henrikh Yagoda, chefe da NKVD, e de sua esposa, Ida Averbakh.

Ida não era uma figura secundária. Intelectual e militante convicta do projeto soviético, em 1936 escreveu uma frase que hoje ecoa de forma trágica:
“O GULAG é um meio ideal para transformar a pior matéria humana em construtores ativos do socialismo”.

Um ano depois, o mesmo sistema que ela defendeu a declarou inimiga do povo. Foi presa, enviada ao GULAG e executada com um tiro na nuca.
A “reeducação” que tanto exaltou transformou-se em sua sentença.

Mas por trás de sua queda estava a derrocada ainda mais ruidosa de seu marido.

Henrikh Yagoda — promotor implacável, responsável direto por milhares de prisões, torturas e condenações aos campos de trabalho — cometeu um erro fatal:
ser útil apenas até o dia em que Stalin deixou de precisar dele.

Tudo veio à tona após um episódio quase absurdo. Máximo Gorki, o escritor mais influente do regime, pediu autorização para viajar à Itália por razões de saúde. A ligação chegou ao Kremlin em um tom que Stalin considerou insolente.

A resposta do líder foi um lembrete frio, disfarçado de metáfora:
um avião chamado “Máxim Gorki” havia caído porque “voava alto demais”.

O recado era claro:
o escritor também estava indo além do que lhe era permitido.

Stalin então chamou Yagoda e ordenou que ele “cuidasse de Gorki”.
Pouco tempo depois, o escritor adoeceu e morreu.
Naquela época, coincidências eram precisas demais para serem apenas coincidências.

E, como sempre ocorria no círculo do poder stalinista, após cumprir sua função, o executor tornava-se o próximo a ser executado.

A queda de Yagoda foi tão teatral quanto cruel.
Stalin o acusou de traição, conspiração e espionagem — crimes que ele próprio havia usado contra milhares —
e ordenou que assistisse à execução de catorze condenados antes de enfrentar a própria morte.

Era o tipo de ironia que definia o terror.

Ida e Yagoda, figuras centrais do aparelho repressivo, desapareceram em 1937 sem memória oficial ou funerais, restando apenas um vazio nos arquivos e um aviso silencioso:
no grande projeto soviético, ninguém estava seguro, nem mesmo aqueles que o haviam construído à base do medo.

Hoje, quando alguns evocam com nostalgia a União Soviética, é impossível não lembrar dessas histórias.
Porque, para além dos discursos, do planejamento e da propaganda, houve vidas destruídas, famílias despedaçadas e um país inteiro governado pelo medo.

Uma época em que o poder podia erguer impérios…
e apagá-los com o mesmo gesto