A Toga e o Abismo
A Toga e o Abismo Por Nelson Rodrigues (psicografado)
Amigos, eu vos digo: o pudor morreu. Não foi de morte morrida, de velhice ou de tédio. Foi assassinado a sangue-frio, com requintes de crueldade, em plena luz do dia, e o enterro foi transmitido pela TV Justiça.
O Brasil de hoje não é mais o país do futebol, nem o país do carnaval. É o país da Toga. Antigamente, o sujeito tinha medo de assombração, de lobisomem, de ser traído pela mulher com o vizinho de porta. Hoje, o brasileiro acorda e vai dormir com medo de uma única coisa: do Supremo.
Vejam vocês a figura de Alexandre de Moraes. Olhem bem! Não é um homem, é uma entidade. Com aquela calva reluzente que reflete as nossas misérias, ele não caminha; ele levita sobre a Constituição como um marido ciumento que desconfia da própria sombra. Ele vê conspiração até em briga de jardim de infância. É o “Xandão”, o Grande Inquisidor, que, num acesso de fúria monocrática, decide quem respira e quem sufoca. Para ele, a liberdade de expressão é uma “grã-fina” que precisa apanhar de cinta para aprender a ter bons modos. É o terror absoluto, o medo abjeto que nos faz sussurrar dentro de casa.
E ao lado dele, o que temos? A figura macia, quase onírica, de Dias Toffoli. Ah, o Toffoli! Ele tem a leveza insuportável de quem nunca pagou um boleto atrasado na vida.
Agora, me aparecem com essa história do Banco Master. O nome já é uma piada pronta, uma bofetada na cara do Zé Ninguém que pega o trem na Central. “Master”! Vejam a pretensão! E aí, descobrimos que a Justiça, essa senhora que deveria ser cega, surda e muda para as tentações, está de namorico com o dinheiro grosso.
Dizem as más línguas – e as más línguas são as únicas que dizem a verdade – que há uma orgia de decisões, uma promiscuidade de gabinetes. Onde entra o Banco Master? Entra pela porta dos fundos, ou pela da frente, tanto faz, porque as portas já foram arrancadas há muito tempo! Fala-se em vendas de sentenças como se vendesse peixe na feira. É o óbvio ululante: a corrupção deixou de ser um crime e virou uma etiqueta social.
Imaginem a cena: o banqueiro e o magistrado, num jantar à luz de velas, trocando juras de amor eterno, enquanto o povo, esse “corno manso” da história, paga a conta e ainda pede desculpas. É de uma perversão que faria corar um frade de pedra!
E nós? Nós somos a plateia paralisada. Vemos as manchetes, vemos as multas milionárias caírem do céu sobre uns e o perdão divino cair sobre outros, e o que fazemos? Nada. Estamos anestesiados. O brasileiro perdeu a capacidade de se indignar. Se o Diabo descesse na Esplanada e fizesse um churrasco com a Constituição, a gente ia perguntar se tem farofa.
O drama do Brasil não é político, nem econômico. É moral. É uma tragédia de costumes. A nossa “Vida Como Ela É” virou um inquérito perpétuo onde ninguém é inocente, mas só os amigos do rei têm o habeas corpus.
Estamos todos no fundo do poço, amigos. Mas, como somos brasileiros, em vez de escalar para sair, nós aproveitamos para decorar o fundo do poço com azulejos portugueses e fingir que é uma piscina.
É o fim da picada. O Brasil acabou, só esqueceram de avisar.