Envelheci…
Envelheci à francesa: sem alarde, sem ruptura, apenas deixando o tempo assentar.
O corpo se aproveitou da minha distração.
Não sei quando foi que decidiu envelhecer, porque fez isso de forma silenciosa, quase elegante.
Um dia eu era movimento, urgência, promessa. No outro, continuidade.
Não houve um aviso claro, nem um momento exato.
O corpo foi mudando enquanto a mente seguia intacta, cheia de planos, curiosidades e vontades. As mãos ganharam histórias, o rosto aprendeu novos mapas, e o espelho passou a refletir alguém que não chegou de repente, mas foi se tornando.
O envelhecimento não bateu à porta; entrou enquanto eu estava ocupada vivendo.
Há algo de delicado nisso. O corpo não traiu, apenas acompanhou o tempo.
Ele desacelerou onde antes corria, pediu cuidado onde antes exigia força. Não perdeu dignidade, ganhou linguagem. Cada mudança passou a comunicar experiência, não declínio.
Envelhecer à francesa é aceitar que o tempo não precisa ser combatido, apenas compreendido.
É permitir que o corpo mude sem que a essência se perca.
A mente continua curiosa, o olhar atento, o coração disponível.
O corpo envelhece, sim, mas o faz com uma elegância silenciosa, como quem sabe que viver é transformar-se sem pedir licença.
Desconheço a autoria.